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Lua Sobolwsky: Mostre-me quem você é e te direi de quem você pode vencer

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Dia 30 de maio de 2017 no UFC 211 em Dallas, mais uma brasileira tentará fazer o improvável: tirar o cinturão da categoria peso-palha de Joanna Jedrzejczyk

Por: Lua Sobolwsky

A notícia foi publicada em primeira mão pelo site polonês Sport.pl e confirmada pela própria Joanna em seu perfil no facebook (“para acabar com os rumores”, como ela mesma disse).

Interessante avaliar esta luta em todas as suas variáveis: Questões técnicas (uma, Muay Thai e outra, Jiu Jitsu BrasileiroMuay ThaiKickboxing), questões de nacionalidade (Europa e América disputando um cinturão), questões fisiológicas (o gás necessário para aguentar até o final em uma disputa de cinco rounds). Enfim, um evento que “promete” deixar as mídias focadas em comparações entre ambas a fim de justificar um possível resultado. Mas e previsões, são possíveis?

Como Psicóloga do Esporte, minha função é auxiliar o atleta para atingir seus resultados. Faço isso trabalhando (e muito) com as questões de autoconhecimento. É de extrema importância e essencial que a “crença central” do atleta seja identificada. É essencial que os pensamentos automáticos negativos sobre si mesmo, sejam reconhecidos e desfeitos. Tudo o que o atleta deve saber sobre seu desempenho possível, deve ser construído a partir de evidências e baseado na realidade. Se não for desta forma, terei um atleta autoconfiante na casca e inseguro por dentro. Ou um atleta com baixa estima e que mina sua capacidade real de se tornar um campeão. Digo que não é fácil entrar em si mesmo, aceitar-se, assumir-se, concertar-se, desconstruir-se e reconstruir-se. Mas para atletas de alto rendimento, é fundamental.

Sobre Jessicas e Joannas

Num esporte como o MMA os juízes pontuam o quesito, Agressividade. E quando pensamos em mulheres lutando podemos até questionar o quanto este critério (por puro desconhecimento) é levado em conta. Falo isso, pois já ouvi – inclusive em ambientes de treino e competições (vinda de Mestres, Senseis e corners) – a expressão: “não lute como uma mulherzinha” (Triste, mas não incomum. Levanta a mão quem já ouviu isso). Digo que conhece pouco do ser humano, quem se isola em questões de gênero, para definir o percentil de agressividade de um lutador/atleta. Aspectos sociais de criação/educação e cultura podem afetar os aspectos fisiológicos de treino e limiar de dor. E por consequência afetam os aspectos psicológicos de força e agressividade. Logo, conhecer-se afeta e interfere em qualquer resultado. Das nossas lutadoras sabemos que Jessica Andrade, brasileira de Umuarama/PR, fez sua estreia no MMA profissional em 2011. Possui o cartel de 16 vitórias e 5 derrotas. Ela é faixa roxa de BJJ, é praticante de Muay Thai e Kickboxing. De Joanna Jędrzejczyk, sabemos que é Polonesa de Olsztyn, seis vezes campeã mundial de Muay Thai, e quatro vezes campeã europeia. Fez sua estréia no MMA em 2012 e em 2015 tornou-se a campeã (e ainda invicta) da categoria Peso-Palha no UFC (cartel de 12 lutas e 12 vitórias). O que mais sabemos sobre elas é o que é divulgado pela mídia. Neste caso, temos muito mais informações da campeã do que da desafiante. E esta pode ser uma arma poderosa para Jessica. Ser ”quase” desconhecida se comparada à Joanna. 

Se, ser campeã é difícil, permanecer campeã é mais!

Joanna deve (o que é esperado para uma Campeã) sofrer uma pressão psicológica extrema em cada luta em que é desafiada. Costumo dizer que “ser um campeão é passar de pedra à vidraça”. O campeão é um ser humano (isso em modalidades individuais, pois em coletivos, são “equipes”) que é esmiuçado, analisado, desmontado aos pedacinhos para que seja conhecido e superado. Mas todos os competidores fazem isso? Investigam seus oponentes? Não sei. Prefiro acreditar que seus técnicos fazem isso por eles, e já repassem na estratégia de luta, tudo o que conseguem “pesquisar”. Sei que (por declaração do próprio) que Conor McGregor, faz isso pessoalmente. Avalia o comportamento, as emoções, a técnica, as táticas, a história pessoal, tudo de seus oponentes. Ele sabe o que funciona e o que não funciona com seus adversários. Ele trabalha a previsão e controle dos resultados (frequência). Isso é ciência! Ciência do comportamento aplicada à luta.

Previsão é a palavra chave deste combate entre Jessica e Joanna. Ambas podem vencer (como em toda luta, ambas entram com 50% de chance). Acredito que se Jessica estiver atenta e se preocupar antecipadamente em ser “a melhor pedra que já foi atirada na vidraça da Joanna”, Ela vence. E vence fácil. Joanna dá muitos indícios de suas “fraquezas” técnicas (o chão) e emocionais (o “blábláblá” e a necessidade de com palavras mostrar/provar sua força – isso para mim, mais que “trash talk” é insegurança).

Então, se Jessica conseguir analisar amplamente a campeã e friamente se autoavaliar (autoconhecimento), ela vence Joanna (“pitaco meu”). Se explorar as fraquezas e superar as forças de Joanna (já que ela é extremamente resistente e possui um cardiorrespiratório invejável) veremos, no dia 30 de maio de 2017, a primeira campeã na categoria Peso-Palha do UFC do Brasil.

Afinal a comparação mais importante entre elas – e que em minha opinião é a mais importante de todas – é que só uma delas já perdeu. E só quem perde, se prepara de forma consistente para vitória. “Vai bate-estaca! Bate tudo!”

Chega logo UFC 211!

Lua Sobolwsky (CRP 12/12292): Psicóloga Clinica e do Esporte. Atua com atletas de MMA, Jiu-Jitsu (é White Belt BJJ), Futebol Americano (Bicampeã Brasileira com a Equipe T-Rex), Flag Football Feminino (T-Rex REDS). Professora do Instituto FURB. Membro do Programa de Apoio ao Esporte e ao Exercício da Universidade Regional de Blumenau (FURB). Amante dos esportes de contato.

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